domingo, 2 de junho de 2013

Pó





Nas estantes os livros ficam (até se dispersarem ou desfazerem) enquanto tudo passa. 
O pó acumula-se e depois de limpo torna a acumular-se no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja (obras, carros, poeiras) o pó é mais negro e por vezes espesso. 
Os livros ficam, valem mais que tudo,
mas , apesar do amor (amor das coisas mudas que sussurram) e do cuidado doméstico,
 fica sempre, em baixo, do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. 
Nós também.

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

sábado, 1 de junho de 2013

Depoimentos Sobre Leitura e Escrita




Profª Mary Lúcia Oliveira.


Venho de uma família sem posses,sem acesso aos estudos,sem livros;mas com muito carinho e sentimento de superação.

O sonho de minha mãe era estudar e,assim, aos sete anos,foi morar na casa do prefeito de uma pequena cidade mineira para supostamente estudar .Mas, ao chegar lá, fizeram dela uma serviçal para forno , fogão e adjacências. Apesar de muito esforço , dificuldades e pequenas humilhações , conseguiu chegar até o terceiro ano do antigo primário; com louvor... ...louvor esse que foi ofuscado pelas palavras de meu avô: “mulher que estuda muito, não casa”. E assim foi sepultado o sonho de minha mãe de ter um diploma e começou sua intenção de ver um dia uma filha sua realizar seu antigo sonho ; intenção essa compartilhada anos depois por aquele que veio a ser o meu querido e incentivador pai .Mas , infelizmente, tenho que confessar uma coisinha: fui uma criança muito doente e o meu maior sonho era aprender a ler, sim – mas por motivos um pouco menos “nobres” . Na verdade , para poder ler as bulas das injeções.


É, eu sei, parece estranho; mas eu tinha uma certeza e um plano : os adultos estavam me dando   injeções  por  pura maldade e  ,  ao aprender  a ler - AS BULAS !!! - eu descobriria por mim mesma que já havia remédios para o meu problema em forma de comprimidos e, assim ,eu desmascararia todos aqueles adultos maldosos: médicos e enfermeiras que me obrigavam a tomar aquelas injeções... ...aquela maldita benzetacil !!!!!!!........

Bem, aprendi a ler e ... continuei tomando injeções. Quando parecia que meu plano havia falhado, algo inusitado aconteceu : meu pai – hoje sei que para me incentivar a ler – passou em uma banca de jornal perto de seu trabalho e pediu para o dono da banca alguma “coisa” com a qual eu pudesse “treinar” a leitura. Bom, se existem fadas , deve existir a fada da leitura pois o moço deu ao meu pai um 
 "livrinho"  chamado “ O quebra Nozes” –  meio usado, puído , único e instigante livro de toda uma infância , que veio a se tornar porta de entrada para um mundo maravilhoso do qual não pretendo sair jamais.